Alimentação
da cadela gestante
Para um mesmo número de fetos, a gestação
se mostra muito mais penosa para uma cadela de raça pequena
do que para uma de raça grande. Para nos convencermos disto,
basta comparar o peso ao nascimento de um filhote com a da sua
mãe. Esta relação é quatro vezes mais
elevada na raça Yorkshire do que no São Bernado
ou um Mastino Napoletano!
O peso de um recém-nascido é um bom indicador da
trocas feto-maternas durante a gestação. Assim,
na espécie humana, os atrasos de crescimento intra-uterino
estão essencialmente associados a causas maternas como
a hipertensão ou a má nutrição.
Da mesma forma, um estado realizado em 1848 em leitões
na estação experimental de Guernévez (Gaugant
e Guéblez, 1994) mostrou que a viabilidade dos leitões
antes do desmame está significativamente associada ao seu
peso ao nascimento.
Na espécie canina, as observações são
comparáveis e os filhotes que sofrem de um atraso de crescimento
são freqüentemente deixados pela mãe.
O regime alimentar da cadela gestante consistirá em adaptar
qualitativa e quantitativamente o alimento materno às necessidade
fisiológicas da gestação, que são
elas próprias estimadas a partir do número de filhotes
em gestação e do seu ganho de peso diário.
Alimentação e infertilidade
Embora a alimentação aja pouco sobre a fecundidade,
prolificidade e início da gestação na cadela,
ela se torna um fator preponderante da saúde dos filhotes
no final da gestação e principalmente após,
durante a lactação. Assim, na espécie canina,
em cadelas aparentemente em boa saúde nenhum caso de infertilidade
pôde se atribuído diretamente a uma deficiência
nutricional. A técnica de "flushing", que consiste
em aumentar o fornecimento energético da dieta de fêmeas
durante o período pré-ovulatório para estimular
a liberação dos ovócitos, é um método
muito difundido nos animais de produção (ovinos,
bovinos) mas cuja eficácia nunca foi ainda demonstrada
na espécie canina.
No entanto durante este período é aconselhável
adaptar o fornecimento alimentar às modificações
hormonais que caracterizam este estágio do ciclo sexual
(colesterol, iodo, vitamina A, vitamina E, zinco). Os alimentos
industrializados são geralmente bem providos destes elementos.
CARACTERÍSTICA
NUTRICIONAL DO ALIMENTO DESTINADO À UMA CADELA NO
FINAL DA GESTAÇÃO(EM RELAÇÃO
À MATÉRIA SECA |
Proteínas
|
25
a 35%
|
Gorduras
|
10
a 30%
|
Celulose
bruta
|
1
a 4%
|
Cálcio
|
1.1
a 1.2%
|
Fósforo
|
0.8
a 0.9%
|
Vitamina
A
|
5,000
a 10,000 IU/kg
|
Energia
|
4,000
a 5,000 kCal/kg
|
Relação
Proteína/Energia |
65
a 70 g/1,000 kCal |
ALIMENTAÇÃO
CASEIRA MODELO PARA UMA FÊMEA EM GESTAÇÃOFormula
(em gramas para 1040 Kcal) |
Carne
magra
|
300 |
Arroz
cozido
|
400 |
Vagem
|
100 |
Cenoura
|
300 |
Farelo
de osso
|
20 |
Composição
em relação à matéria seca |
Proteínas
brutas
|
24,5%
|
Gorduras
|
14%
|
Cálcio
|
1,6%
|
Fósforo |
1% |
Por
outro lado, não é raro observar perturbações
da fertilidade em cadela visivelmente magras ou, inversamente,
muito obesas. Nestes casos é importante aproveitar o período
de anestro para ajustar os fornecimentos alimentares e permitir
assim à cadela retornar ao seu peso ideal antes de entrar
em reprodução. Na prática, faz-se uma superalimentação
de aproximadamente 10% para uma cadela muito magra nos meses que
precedem o estro e uma diminuição de 10% no caso
inverso considerando-se o teor energético (valor calórico)
do alimento.
Alimentação energética
Mesmo que o apetite de uma cadela tenda a aumentar a partir da
terceira semana de gestação, as suas exigências
nutricionais permanecem relativamente estáveis durante
as cinco primeira semanas, tanto no plano qualitativo quanto quantitativo.
Na realidade, o crescimento dos fetos ainda é pequeno,
a mineralização do seu esqueleto ainda não
começou e o seu desenvolvimento ainda não comprime
o volume gástrico da reprodutora.
Por volta da quinta semana não é raro observar um
queda transitória do apetite, sendo que esta modificação
é freqüentemente uma confirmação da
gestação. Nesta fase o desenvolvimento ponderal
e esquelético dos fetos começa a assumir uma proporção
exponencial e leva a um aumento progressivo das necessidade protéicas
e energéticas (e, em menor escala, de minerais) da reprodutora,
quando é justamente nesse momento que as sua capacidade
gástrica tende a diminuir.
Portanto a contribuição energética do alimento
deve essencialmente levar em conta a redução da
capacidade gástrica da fêmea em final de gestação
e permitir a constituição de reservas glicogênicas
dos filhotes, porém sem favorecer o depósito de
gorduras na área pélvica da mãe. A constituição
das reservas glicogênicas ao nível do fígado
dos fetos em final de gestação requer um fornecimento
de glicídos na alimentação materna para não
expor os filhotes ao risco de uma hipoglicemia ao nascimento.
Com efeito, embora seja teoricamente possível alimentar
um cão com dietas desprovidas de glicídeos (não
indispensáveis nos carnívoros, que podem sintetizá-los
a partir de lipídeos ou de proteínas), tais regimes
impostos a cadelas em gestação levaram experimentalmente
a um aumento da mortalidade nos filhotes por hipoglicemia nos
dias que se seguiram ao seu nascimento.
As necessidades energéticas totais da cadela em gestação
representam uma somatória das suas próprias necessidades
de manutenção com as necessidades de crescimento
e de manutenção dos fetos. A título de exemplo,
uma cadela de tamanho médio, como uma Cocker de 12kg, com
12 filhotes em gestação terá sua necessidade
energética aumentada em aproximadamente 4 a 5 vezes no
final da gestação.
Neste período a cadela deverá então ser alimentada
com uma dieta altamente palatável (para compensar a sua
perda de apetite), de alta densidade energética e de boa
digestibilidade, que será oferecida preferencialmente em
várias e pequenas refeições durante o dia.
Uma alimentação à vontade é recomendada
apenas para cadelas muito magras.
Ajuste
protéico
A análise média da composição dos
fetos de cães revela 82% de água, 13 a 15% de proteínas
(ou seja 80% de proteínas em relação à
matéria seca), 1,5% de gorduras e aproximadamente 2% de
minerais.
Considerando o alto teor protéico dos filhotes, a gestação
necessita de um depósito de proteínas e, portanto
uma reformulação das quantidades para mais, no que
se refere ao fornecimento de proteínas à mãe
(aproximadamente 2,8 vezes as necessidades de manutenção
no exemplo anterior para uma cadela Cocker).
Embora a responsabilidade de um eventual excesso protéico
na alimentação materna no aparecimento da síndrome
do cão nadador nas raças predispostas já
tenha sido sugerido por alguns autores, esta hipótese está
longe de ser confirmada. Na verdade, é comum observar apenas
um filhote afetado numa mesma ninhada.
Além disso, em patologia comparada, a alimentação
materna já não é apontada como causa para
o splayleg-disease em leitões, que é uma afecção
comparável à síndrome do cão nadador
na espécie canina.
Minerais
e vitaminas
Deve-se atribuir uma atenção especial ao nível
de vitamina A na alimentação materna, uma vez que
esta vitamina se difunde através da barreira placentária
permitindo assim uma boa proteção dos epitélios
nos filhotes desde o seu nascimento.
Por esta razão, o nível de incorporação
de vitamina A pode se aproximar das 10000 UI/kg (ou seja, o dobro
do nível aconselhado para um alimento de manutenção).
No entanto é necessário ter cautela com os excessos
(mais de quatro vezes esta dosagem) que podem induzir fissuras
palatinas, deformações da cauda, das orelhas e do
ráquis, mumificações fetais e uma mortalidade
neonatal, sendo que o período de suscetibilidade máxima
situa-se entre o 17º e o 22º dia de gestação.
Os excessos de vitamina D predispõem a calcificações
dos tecidos moles, estenoses das válvulas cardíacas
e a um fechamento prematuro das fontanelas.
Quanto ao cálcio, uma suplementação excessiva
e precoce durante a gestação pode predispor às
eclampsias pré ou pós-parto, responsáveis
respectivamente por partos prematuros e por esmagamento acidental
dos filhotes.
Em resumo, para alimentar uma cadela em gestação,
deve-se ter em mente os seguintes elementos:
ü o aumento das necessidade alimentares da cadela em aproximadamente
10% por semana a partir da quinta semana de gestação
requer a utilização de uma alimentação
seca (as rações caseiras ou em conserva contêm
mais de 80% de água e portanto "sobrecarregam"
um estômago de capacidade reduzida duas a três vezes
mais do que os alimentos secos);
- A densidade energética desse alimento deverá ser
elevada (energia metabolizável compreendida entre 3800
e 4300 kcal/kg de alimento em função do estado corporal,
da atividade e do temperamento da cadela) e poderá ser
facilmente avaliada pelo volume e consistência das fezes
obtidas;
- O nível protéico deve ser aumentado (entre 25
e 36% de proteínas/kg de alimento em função
do número de filhotes esperados) porque a "matéria
seca" dos filhotes ao nascimento é composta por 70
a 80% de proteínas;
- A mineralização do esqueleto dos fetos em final
de gestação requer um aumento do fornecimento em
minerais que o constituem (principalmente cálcio e fósforo).
O fornecimento de cálcio deve ser calculado em função
da densidade energética do alimento, que determina a quantidade
a ser ingerida pela cadela. Esta não deve ultrapassar 4
gramas de cálcio por 1000 quilocalorias a fim de diminuir
o risco de interrupção do funcionamento das glândulas
paratireóides, o que predispões às eclampsias
(crises de tetania) no parto ou durante a lactação.
O nível de fósforo é geralmente calculado
de forma que a relação cálcio/fósforo
fique entre 1,2 e 1,4 ou seja uma proporção fisiológica
para os componentes do osso;
o peso da fêmea no final da gestação não
deve ultrapassar 120% do seu peso de manutenção
(110% nas raças gigantes, 130% nas raças miniaturas)
para diminuir os risco de dificuldades no parto devido à
obstrução por excesso de gordura na área
pélvica.